Em Manaus, participantes do programa de capacitação profissional Jovens em Ação contam sobre a experiência de aprendizado e a trajetória até o primeiro emprego
As memórias de infância de Nelson em Tucupita, capital do estado de Delta Amacuro, na Venezuela, são de banhos de rio, jogos de futebol com os amigos e de momentos felizes. Lorena também guarda boas recordações de quando estava lá, especialmente das leituras. Ela gostava de escrever e sonhava em ser professora. A vida na comunidade indígena Warao, situada próxima ao Delta do Orinoco, era tranquila e remonta boas lembranças nos dois.
Eles tiveram que deixar o país de origem com suas famílias por conta da crise que se acentuava. As memórias do início da adolescência já são bem diferentes da fase anterior. As famílias vieram para o Brasil. Entre caminhadas e ônibus, chegaram a Pacaraima, cidade de Roraima que faz fronteira com a Venezuela.
“Caminhamos muito, dormíamos nas ruas e em rodovias pelo caminho. Passamos por muitas coisas difíceis”, relembra Nelson.
“Quando chegamos em Pacaraima, minha mãe conta que sofríamos muito com o frio e com as chuvas. Não tínhamos como nos cobrir”, conta Lorena.
Relatos como estes se repetem entre pessoas que são forçadas a se deslocar. As trajetórias de Lorena e Nelson se assemelham às de milhares de pessoas refugiadas que chegam ao Brasil vindas da Venezuela pela fronteira: chegam a Pacaraima, permanecem por um tempo em Boa Vista em abrigos da Operação Acolhida e depois se deslocam a outros estados brasileiros. Eles foram para o Amazonas. Residem no bairro Nova Cidade, em Manaus.
Atualmente, Lorena tem 19 anos e Nelson 17. Apesar da idade próxima, Lorena é tia de Nelson. Os dois são amigos e foram colegas no programa Jovens em Ação – Edição Indígenas Warao, realizado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o Instituto Hermanitos, em parceria com MPT – AM/RR, Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região e Secretaria de Inspeção do Trabalho.

O programa Jovens em Ação oferece capacitação para pessoas refugiadas e migrantes que buscam o primeiro emprego. Lorena e Nelson fizeram parte da primeira turma composta por 28 jovens indígenas do povo Warao. A jornada formativa durou dois meses, período em que desenvolveram competências técnicas e socioemocionais. Participaram também de palestras e oficinas de informática básica e língua portuguesa.
Durante quase uma hora de conversa, chamou a atenção o quanto os dois mencionam os estudos como algum importante em suas vidas. E por alguns anos, tiveram que deixar de estudar. Hoje, Nelson participa do programa de Educação de Jovens e Adultos. Assim como qualquer pessoa brasileira, refugiados também podem acessar o sistema público de educação.

“Quando terminar o EJA passo para o Ensino Médio e depois quero fazer faculdade. Quero ser enfermeiro”, comenta.
Lorena conta que o estímulo vem da família. “Minha irmã Leila sempre me aconselha que tenho que seguir estudando, porque se eu não estudar, estarei sempre em casa e não vou conseguir trabalhar”.
A educação é uma ferramenta fundamental para que jovens, sejam brasileiros ou refugiados, consigam o primeiro emprego no Brasil. Exemplo disso é o Jovem Aprendiz, programa federal (Lei 10.097/2000) que fomenta a inclusão de pessoas de 14 a 24 anos no mercado de trabalho. Combina atividades práticas em empresas com capacitação teórica em instituições parceiras. Com registro em carteira de trabalho e jornada reduzida (4 a 6h), oferece salário proporcional, FGTS, férias e vale-transporte. Para participar, a pessoa deve estar matriculada na Educação Básica ou ter concluído o Ensino Médio.
Alinhado a esta política pública, o curso oferecido pelo programa Jovens em Ação é uma oportunidade de valorizar os conhecimentos destes jovens e apoiá-los com informações sobre o mercado de trabalho brasileiro e aspectos culturais do país. Proporciona ainda o desenvolvimento do idioma português, chave para uma melhor inclusão no Brasil. Durante a entrevista, que foi conduzida em espanhol, Nelson incluiu várias palavras já em português em suas repostas.
“Estou com saudade. Do curso, dos amigos, dos momentos no ônibus, das conversas e brincadeiras. Os professores ensinavam muito bem. Me ajudou bastante a escrever e ler. Aprendi muitas coisas.”, compartilha.
Vamos combinar que quem sente saudade já está sabendo bem de Brasil, não é mesmo?

“Me fez refletir muito, porque sem nenhum curso, não se consegue trabalho. Sem estudo, não se consegue praticamente nada. Gostei muito, especialmente das aulas de informática”, diz Lorena.

Os dois fecharam a conversa dizendo que gostariam que o curso nunca acabasse.
“O ACNUR continuará apoiando iniciativas como esta que proporciona aos jovens refugiados e outros forçados a se deslocar as condições necessárias para se sentirem incluídos no Brasil de forma digna, e que possam vislumbrar o futuro que desejam”, afirma Juliana Serra, chefe do escritório do ACNUR em Manaus.
A capacitação profissional desempenha um papel essencial na construção de um futuro digno para jovens refugiados. Neste programa, os jovens têm a oportunidade de moldar suas trajetórias profissionais em um ambiente que valoriza suas habilidades e culturas.
“Por outro lado, jovens refugiados mais bem preparados para o mercado de trabalho refletem também em diversidade e inovação para as empresas que contratam e no desenvolvimento das comunidades que os acolhem”, complementa.
O programa só é possível porque conta com a implementação do Instituto Hermanitos. Para Anderson Mattos, diretor de projetos da organização, o Jovens em Ação proporcionou uma jornada de desenvolvimento para essa turma que se destacou pela determinação.
“Adaptamos o conteúdo à realidade deles, garantindo que fossem os protagonistas de cada etapa. Além da formação, integramos debates sobre mudanças climáticas e vivências culturais, como a visita ao Museu da Cidade e oficinas de artesanato, promovendo uma troca rica que valoriza os saberes tradicionais e a identidade do povo Warao”, destaca.
Sobre o Jovens em Ação
Criado em 2022, o programa Jovens em Ação já incluiu estudantes de nacionalidades variadas em suas outras edições. Podem participar pessoas de 14 a 22 anos, que estejam cursando o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio, ou que já tenham concluído os estudos no Brasil. É aberto também para pessoas brasileiras. Nestes mais de três anos, já impactou 336 jovens refugiados e outros deslocados à força que residem em Manaus e Boa Vista (RR).
O ACNUR apoia o programa Jovens em Ação por meio do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (MPTF). Com suporte do Governo do Canadá, o MPTF fortalece o trabalho do ACNUR e de outras agências da ONU, permitindo respostas humanitárias rápidas, coordenadas e sensíveis às necessidades de populações em situação de vulnerabilidade na Amazônia.
Conteúdo original postado em: https://www.acnur.org/br/noticias/notas-informativas/indigenas-warao-sao-jovens-em-acao




