Indígenas Warao, Lorena e Nelson, são Jovens em Ação

Os dois fizeram parte da primeira turma dedicada a jovens indígenas Warao no programa de capacitação. Créditos - ACNUR/Guilherme Bofill

Em Manaus, participantes do programa de capacitação profissional Jovens em Ação contam sobre a experiência de aprendizado e a trajetória até o primeiro emprego

 

As memórias de infância de Nelson em Tucupita, capital do estado de Delta Amacuro, na Venezuela, são de banhos de rio, jogos de futebol com os amigos e de momentos felizes. Lorena também guarda boas recordações de quando estava lá, especialmente das leituras. Ela gostava de escrever e sonhava em ser professora. A vida na comunidade indígena Warao, situada próxima ao Delta do Orinoco, era tranquila e remonta boas lembranças nos dois.

Eles tiveram que deixar o país de origem com suas famílias por conta da crise que se acentuava. As memórias do início da adolescência já são bem diferentes da fase anterior. As famílias vieram para o Brasil. Entre caminhadas e ônibus, chegaram a Pacaraima, cidade de Roraima que faz fronteira com a Venezuela.

“Caminhamos muito, dormíamos nas ruas e em rodovias pelo caminho. Passamos por muitas coisas difíceis”, relembra Nelson.

“Quando chegamos em Pacaraima, minha mãe conta que sofríamos muito com o frio e com as chuvas. Não tínhamos como nos cobrir”, conta Lorena.

Relatos como estes se repetem entre pessoas que são forçadas a se deslocar. As trajetórias de Lorena e Nelson se assemelham às de milhares de pessoas refugiadas que chegam ao Brasil vindas da Venezuela pela fronteira: chegam a Pacaraima, permanecem por um tempo em Boa Vista em abrigos da Operação Acolhida e depois se deslocam a outros estados brasileiros. Eles foram para o Amazonas. Residem no bairro Nova Cidade, em Manaus.

Atualmente, Lorena tem 19 anos e Nelson 17. Apesar da idade próxima, Lorena é tia de Nelson. Os dois são amigos e foram colegas no programa Jovens em Ação – Edição Indígenas Warao, realizado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o Instituto Hermanitos, em parceria com MPT – AM/RR, Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região e Secretaria de Inspeção do Trabalho.

A décima turma do Jovens em Ação, edição voltada a indígenas Warao, foi formada em dezembro de 2025. Créditos - Hermanitos
A décima turma do Jovens em Ação, edição voltada a indígenas Warao, foi formada em dezembro de 2025. Créditos – Hermanitos

O programa Jovens em Ação oferece capacitação para pessoas refugiadas e migrantes que buscam o primeiro emprego. Lorena e Nelson fizeram parte da primeira turma composta por 28 jovens indígenas do povo Warao. A jornada formativa durou dois meses, período em que desenvolveram competências técnicas e socioemocionais. Participaram também de palestras e oficinas de informática básica e língua portuguesa.

Durante quase uma hora de conversa, chamou a atenção o quanto os dois mencionam os estudos como algum importante em suas vidas. E por alguns anos, tiveram que deixar de estudar. Hoje, Nelson participa do programa de Educação de Jovens e Adultos. Assim como qualquer pessoa brasileira, refugiados também podem acessar o sistema público de educação.

Enquanto conversavam com a equipe do ACNUR, os dois jovens puderam conhecer o Museu da Amazônia (MUSA) que faz parte da Reserva Florestal Adolpho Ducke. Créditos - ACNUR/Guilherme Bofill
Enquanto conversavam com a equipe do ACNUR, os dois jovens puderam conhecer o Museu da Amazônia (MUSA) que faz parte da Reserva Florestal Adolpho Ducke. Créditos – ACNUR/Guilherme Bofill

“Quando terminar o EJA passo para o Ensino Médio e depois quero fazer faculdade. Quero ser enfermeiro”, comenta.

Lorena conta que o estímulo vem da família. “Minha irmã Leila sempre me aconselha que tenho que seguir estudando, porque se eu não estudar, estarei sempre em casa e não vou conseguir trabalhar”.

A educação é uma ferramenta fundamental para que jovens, sejam brasileiros ou refugiados, consigam o primeiro emprego no Brasil. Exemplo disso é o Jovem Aprendiz, programa federal (Lei 10.097/2000) que fomenta a inclusão de pessoas de 14 a 24 anos no mercado de trabalho. Combina atividades práticas em empresas com capacitação teórica em instituições parceiras. Com registro em carteira de trabalho e jornada reduzida (4 a 6h), oferece salário proporcional, FGTS, férias e vale-transporte. Para participar, a pessoa deve estar matriculada na Educação Básica ou ter concluído o Ensino Médio.

Alinhado a esta política pública, o curso oferecido pelo programa Jovens em Ação é uma oportunidade de valorizar os conhecimentos destes jovens e apoiá-los com informações sobre o mercado de trabalho brasileiro e aspectos culturais do país. Proporciona ainda o desenvolvimento do idioma português, chave para uma melhor inclusão no Brasil. Durante a entrevista, que foi conduzida em espanhol, Nelson incluiu várias palavras já em português em suas repostas.

“Estou com saudade. Do curso, dos amigos, dos momentos no ônibus, das conversas e brincadeiras. Os professores ensinavam muito bem. Me ajudou bastante a escrever e ler. Aprendi muitas coisas.”, compartilha.

Vamos combinar que quem sente saudade já está sabendo bem de Brasil, não é mesmo?

Nelson foi um dos representantes da turma que discursou na formatura. Créditos - Hermanitos
Nelson foi um dos representantes da turma que discursou na formatura. Créditos – Hermanitos

“Me fez refletir muito, porque sem nenhum curso, não se consegue trabalho. Sem estudo, não se consegue praticamente nada. Gostei muito, especialmente das aulas de informática”, diz Lorena.

Lorena conta que quer seguir aprendendo mais sobre informática, pois foi o que mais gostou. Créditos - ACNUR/Guilherme Bofill
Lorena conta que quer seguir aprendendo mais sobre informática, pois foi o que mais gostou. Créditos – ACNUR/Guilherme Bofill

Os dois fecharam a conversa dizendo que gostariam que o curso nunca acabasse.

“O ACNUR continuará apoiando iniciativas como esta que proporciona aos jovens refugiados e outros forçados a se deslocar as condições necessárias para se sentirem incluídos no Brasil de forma digna, e que possam vislumbrar o futuro que desejam”, afirma Juliana Serra, chefe do escritório do ACNUR em Manaus.

A capacitação profissional desempenha um papel essencial na construção de um futuro digno para jovens refugiados. Neste programa, os jovens têm a oportunidade de moldar suas trajetórias profissionais em um ambiente que valoriza suas habilidades e culturas.

“Por outro lado, jovens refugiados mais bem preparados para o mercado de trabalho refletem também em diversidade e inovação para as empresas que contratam e no desenvolvimento das comunidades que os acolhem”, complementa.

O programa só é possível porque conta com a implementação do Instituto Hermanitos. Para Anderson Mattos, diretor de projetos da organização, o Jovens em Ação proporcionou uma jornada de desenvolvimento para essa turma que se destacou pela determinação.

“Adaptamos o conteúdo à realidade deles, garantindo que fossem os protagonistas de cada etapa. Além da formação, integramos debates sobre mudanças climáticas e vivências culturais, como a visita ao Museu da Cidade e oficinas de artesanato, promovendo uma troca rica que valoriza os saberes tradicionais e a identidade do povo Warao”, destaca.

Sobre o Jovens em Ação

Criado em 2022, o programa Jovens em Ação já incluiu estudantes de nacionalidades variadas em suas outras edições. Podem participar pessoas de 14 a 22 anos, que estejam cursando o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio, ou que já tenham concluído os estudos no Brasil. É aberto também para pessoas brasileiras. Nestes mais de três anos, já impactou 336 jovens refugiados e outros deslocados à força que residem em Manaus e Boa Vista (RR).

O ACNUR apoia o programa Jovens em Ação por meio do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (MPTF). Com suporte do Governo do Canadá, o MPTF fortalece o trabalho do ACNUR e de outras agências da ONU, permitindo respostas humanitárias rápidas, coordenadas e sensíveis às necessidades de populações em situação de vulnerabilidade na Amazônia.

Conteúdo original postado em: https://www.acnur.org/br/noticias/notas-informativas/indigenas-warao-sao-jovens-em-acao

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